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Atos 18.3: O Fazedor de Tendas

Em Corinto, Paulo costurava o pano de pelo de cabra da Cilícia, sua terra, na oficina de Áquila e Priscila

Mãos costurando pano de pelo de cabra numa oficina

Na oficina de Corinto, a agulha de Paulo

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“E, como era do mesmo ofício, ficou com eles, e trabalhava; pois tinham por ofício fazer tendas.” Assim a Almeida Revista e Corrigida, revisão de 1898, traduz Atos 18.3.

O versículo serve a quem passa o dia num trabalho comum e acha que a fé mora só no domingo: o balcão, a planilha, o volante, a máquina de costura.

A cena se passa em Corinto, cidade grega de dois portos, nos primeiros anos da década de 50. Paulo chega vindo de Atenas, sem igreja que o sustente e sem casa para ficar.

Encontra um casal judeu recém-chegado da Itália: Áquila, natural do Ponto, e a mulher dele, Priscila. Os dois tinham saído de Roma porque o imperador Cláudio mandou todos os judeus deixarem a cidade.

O historiador romano Suetônio registra a expulsão na “Vida de Cláudio”, escrita no ano 121, e diz que os judeus viviam em tumulto “por instigação de Cresto”. Muitos estudiosos leem nesse nome uma forma grega de Cristo.

Atos 18.2 não diz se o casal já era cristão ao desembarcar. O texto mostra só que os dois chegaram com um ofício nas mãos e precisaram refazer a clientela numa cidade estranha.

Três exilados, então, numa oficina de Corinto. Antes da pregação, o que une os três é o ofício: cortar, costurar e remendar pano o dia inteiro. Paulo se senta no banco com eles e pega a agulha.

Lucas, o autor de Atos, usa uma palavra rara para nomear o trabalho. Ela aparece uma única vez no Novo Testamento, e só neste versículo.

A palavra liga o apóstolo a um tecido de cheiro forte, a uma província do sul da atual Turquia e ao jeito como ele pagou o próprio sustento durante 18 meses em Corinto.

A faixa I abre a oficina: o pano, a agulha, a origem do material e o motivo de um fariseu instruído saber costurá-lo.

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I  A Palavra

A agulha na oficina de Corinto

 

A resposta de ontem

Que ferramenta de pedra socava o barro do teto galileu?

Um rolo de pedra: um cilindro de calcário do tamanho de um tronco curto, rolado sobre o teto depois das chuvas para fechar as rachaduras do barro. O etnógrafo alemão Gustaf Dalman registrou o uso em aldeias da Palestina na obra Arbeit und Sitte in Palästina, e rolos assim aparecem em escavações de casas antigas da região.

Imagine uma oficina estreita numa rua de comércio de Corinto. Rolos de pano escuro encostados na parede, cheiro de bicho molhado no ar e três pessoas sentadas no chão com agulhas grossas e fio encerado.

Lucas chama o ofício de skēnopoiós (fazedor de tendas). A palavra junta skēnē, que quer dizer tenda, com o verbo grego de fazer. Nenhum outro livro do Novo Testamento a usa.

O material mais comum dessas tendas era o pelo de cabra. Bem apertado no tear, o pano escuro aguentava chuva, sol e vento, e abrigava pastores, soldados em campanha e marinheiros nos portos.

Os romanos davam a esse pano o nome de cilicium (pano da Cilícia). O escritor Marco Terêncio Varrão explica o termo no tratado “Sobre a Agricultura”, de 37 a.C.: as cabras eram tosquiadas na Cilícia, e o pelo virava pano para acampamentos e navios.

A Cilícia era a província de Paulo. Ele mesmo diz ao comandante romano, em Atos 21.39, na mesma Almeida: “[...] eu sou um homem judeu, cidadão de Tarso, cidade não pouco célebre na Cilícia [...]”.

O menino de Tarso cresceu numa região que vivia do pelo de cabra. A Bíblia não diz quem lhe ensinou a costurar. Os comentaristas costumam apontar o pai, porque nas famílias judias o ofício passava de pai para filho.

A Mishná, coletânea de leis judaicas fechada no ano 200, guarda um ditado sobre o tema. No tratado Pirkei Avot (Ética dos Pais), 2.2, Rabban Gamaliel, filho de Judá, o Príncipe, ensina: “Belo é o estudo da Torá junto com um ofício”.

Paulo estudou em Jerusalém com outro Gamaliel, mais antigo, segundo Atos 22.3. Saiu de lá mestre da Lei e costureiro de tenda, dois saberes que a tradição dos rabinos mandava andar juntos.

Há quem leia a palavra de outro modo. Alguns escritores cristãos antigos e estudiosos modernos sugerem que o skēnopoiós trabalhava com couro, porque as tendas do exército romano também eram de couro. O texto não decide, e as duas leituras põem Paulo no mesmo banco de trabalho.

O pesquisador americano Ronald Hock estudou o tema no livro “The Social Context of Paul's Ministry” (O contexto social do ministério de Paulo), de 1980. Ele descreve a oficina como lugar de conversa: enquanto a agulha trabalhava, o cliente que entrava ouvia falar de Cristo.

Durante a semana, o púlpito de Paulo era o banco da oficina. Aos sábados ele seguia para a sinagoga e, conforme Atos 18.4, discutia com judeus e gregos, tentando convencê-los.

 
 
 
 

II  Aplicação Prática

As mãos da segunda-feira

 

Pense na sua segunda-feira às 8 da manhã. O primeiro e-mail, a fila do caixa, o paciente na maca, a criança que precisa de banho. Muita gente vive essas horas como intervalo entre um culto e outro.

Paulo não tratava o pano como intervalo. Em 1 Tessalonicenses 2.9, na mesma Almeida, ele lembra: “[...] trabalhando noite e dia, para não sermos pesados a nenhum de vós, vos pregamos o evangelho de Deus.”

Ele tinha direito a ser sustentado pelas igrejas, e conta em 1 Coríntios 9 que abriu mão desse direito em Corinto. A agulha lhe dava liberdade: ninguém podia acusá-lo de pregar por dinheiro.

Mais tarde, chegou reforço. Atos 18.5 conta que Silas e Timóteo vieram da Macedônia, e 2 Coríntios 11.9 diz que os irmãos de lá supriram o que faltava. Só então Paulo se dedicou inteiro à pregação.

A primeira aplicação é olhar o seu ofício como lugar, e não como pausa. A conversa da oficina de Corinto aconteceu porque havia pano para costurar. O seu trabalho também junta gente que nunca entraria numa igreja.

A segunda aplicação trata do sustento. Paulo pagou as próprias despesas para tirar um obstáculo do caminho de quem ouvia. Pergunte onde o seu dinheiro, ou a falta dele, pesa sobre quem você quer servir.

A terceira aplicação é a parceria. Paulo não montou oficina própria: entrou na de Áquila e Priscila. Fé e trabalho se encontraram numa casa que alguém já tinha aberto, com ferramentas, clientes e aluguel.

Três passos, 15 minutos somados, levam o versículo para a semana.

1. Primeiro passo, 5 minutos. Leia Atos 18.1 a 18.11 e marque cada verbo de trabalho e cada verbo de pregação.

2. Segundo passo, 5 minutos. Escreva o nome de três pessoas com quem você trabalha toda semana e que não frequentam igreja.

3. Terceiro passo, 5 minutos. Escolha uma delas e marque um café ou um almoço curto nos próximos sete dias, só para ouvir como ela está.

O primeiro erro é transformar o ofício em ferramenta de recrutamento. Paulo costurava tenda boa, que não deixava a chuva passar. Trabalho malfeito desmente o que a boca prega.

O segundo erro é ter vergonha do serviço braçal. Em Corinto, a elite grega desprezava quem vivia das mãos. Paulo escreve em 1 Coríntios 4.12, na mesma Almeida: “[...] trabalhando com nossas próprias mãos [...]”, e não esconde os calos.

O terceiro erro é achar que a obra só começa quando o expediente termina. Os 18 meses de Corinto, registrados em Atos 18.11, foram em boa parte meses de agulha. A igreja da cidade nasceu numa oficina.

 
 
 
 
 

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III  Reflexão

A tenda que virou casa de oração

 

Quando Paulo deixa Corinto, Atos 18.18 diz que Priscila e Áquila embarcam com ele rumo à Síria. O casal desce em Éfeso, porto da costa da atual Turquia, e monta ali uma nova oficina.

Em Éfeso, os dois ouvem Apolo, judeu de Alexandria, eloquente e bom conhecedor das Escrituras. Atos 18.26 conta que “[...] o levaram consigo, e lhe declararam mais pontualmente o caminho de Deus.”

Repare na ordem dos nomes. Em quatro das seis menções do Novo Testamento, Priscila vem antes de Áquila, num tempo em que o marido costumava vir primeiro. Os comentaristas leem no detalhe o peso dela no ensino.

Paulo escreve de Éfeso a carta de 1 Coríntios e manda, em 16.19, as saudações do casal “[...] com a igreja que está em sua casa.” A oficina tinha virado ponto de reunião dos cristãos da cidade.

A tenda tem história comprida na Bíblia. No deserto, Deus manda Moisés armar o tabernáculo, a tenda da reunião, e Êxodo 26.7 pede: “Farás também cortinas de pelos de cabras para tenda sobre o tabernáculo [...]”.

O pano grosso da Cilícia era, portanto, parente do pano que cobria a morada de Deus no deserto. Qualquer judeu que entrasse na oficina de Corinto reconhecia o material das histórias que ouvia desde criança.

O Evangelho de João usa um verbo da mesma família. Em João 1.14, o Verbo “[...] habitou entre nós [...]”, e o grego diz eskḗnōsen (armou a sua tenda). A palavra de Atos 18.3 e a de João dividem a raiz.

Paulo volta à tenda em 2 Coríntios 5.1, quando chama o corpo de “[...] a nossa casa terrestre deste tabernáculo [...]”, moradia provisória que um dia se desmonta. O costureiro sabia, pelo ofício, quanto dura um pano exposto ao tempo.

Uma tenda bem costurada abriga quem passa, se desmonta e segue viagem. Assim andou a oficina de Áquila e Priscila: de Roma para Corinto, de Corinto para Éfeso, sempre com a casa aberta aos cristãos do lugar.

Hoje, até as 21 horas: leia Atos 18.3 em voz alta e anote num papel uma tarefa do próximo expediente capaz de abrigar alguém.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Em que cidade Priscila e Áquila moravam quando Paulo mandou saudá-los no capítulo 16 de Romanos?

 
 
 
 
 
Quiz da edição

De acordo com o texto, de onde Áquila era natural?

ADa Cilícia, mesma província de Paulo
BDo Ponto
CDa Macedônia
DDe Roma

Resultado da última edição: 90% acertaram.

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