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Imagine uma oficina de tingimento como as que abasteciam Lídia de Tiatira no século 1. Tinas de pedra soltam vapor, a lã entra crua e sai vermelho-escura, e os braços dos tintureiros ficam manchados até o cotovelo. Lucas resume esse comércio numa palavra só: porphyropōlis (vendedora de púrpura), que não aparece em nenhum outro versículo do Novo Testamento. Ela junta a cor ao verbo pōleō (vender), o mesmo que o português guardou em monopólio. O detalhe está na cor. Em grego, porphyra (púrpura) servia para dois: a tinta e o caramujo marinho de concha espinhosa que os fenícios de Tiro esmagavam para tirá-la. O ofício de Lídia se chamava pelo bicho do mar. Plínio, o Velho, descreve o processo na “História Natural”, dedicada ao imperador Tito no ano 77: a tinta vinha de uma glândula pequena, com poucas gotas por caramujo, e a de Tiro tinha fama de melhor tom. A conta pesava. Em 1909, o químico alemão Paul Friedländer usou doze mil caramujos para obter 1,4 grama de corante. Plínio, citando o historiador Cornélio Nepos, conta que a libra de lã de Tiro tingida duas vezes passava de mil denários. O denário era a moeda de prata romana que, em Mateus 20.2, paga um dia de trabalho na vinha. Pela conta de Nepos, uma libra daquela lã valia mais de mil diárias. Tiatira fica no interior da Ásia Menor, longe do mar dos caramujos. A região tinha outra fonte de vermelho: a raiz da ruiva (Rubia tinctorum, a planta também chamada garança), que Plínio, no livro 19, chama de necessária para tingir lã e couro. O ofício é antigo ali. No canto 4 da “Ilíada”, do século 8 a.C., Homero compara o sangue de Menelau ferido ao marfim que uma mulher da Meônia, nome antigo da Lídia, tinge de vermelho para enfeitar o freio de um cavalo. As pedras de Tiatira registram o comércio organizado. Inscrições dos séculos 2 e 3 citam a corporação dos bapheis (os que tingem), e uma delas conta que os tintureiros homenagearam Marco, filho de Menandro, por serviço prestado à cidade. As inscrições vieram um ou dois séculos depois de Lídia, mas mostram a fama da cidade: nenhuma outra da província romana da Ásia tem tantas corporações de ofício registradas em pedra. A ruiva durou. O historiador britânico Colin Hemer, no livro de 1986 sobre as cartas às sete igrejas da Ásia, registra que a planta ainda se cultivava na região de Tiatira no século 19. A Europa chamava esse tom de vermelho-turco. A lavoura perdeu mercado depois de 1868, quando os químicos alemães Carl Graebe e Carl Liebermann fizeram em laboratório a alizarina, a molécula vermelha da raiz. Na Antiguidade, púrpura nomeava uma faixa de tons do vermelho-escuro ao violeta. A raiz dava o vermelho profundo dessa faixa por uma fração do preço do caramujo. Lucas não diz qual tinta Lídia vendia, e nenhum texto antigo resolve a dúvida. Uma inscrição de Filipos homenageava Antíoco, filho de Lico, tintureiro de púrpura natural de Tiatira, mas a pedra foi copiada por um visitante só e se perdeu, e parte dos estudiosos duvida dela.
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