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Imagine um servo de Laodiceia ao entardecer, com o cântaro cheio na fonte pública. Ele bebe um gole antes de subir a rua. A água tem gosto de pedra e a temperatura de um copo esquecido na mesa. Ele cospe e segue. O gesto de cuspir é a imagem do versículo. João escreve chliarós (morno, tíbio), adjetivo que aparece uma única vez no Novo Testamento. Ao lado vem o verbo emeō (vomitar, pôr para fora), da família de emético, o remédio que provoca vômito. A Almeida de 1898 escolheu “morno”; outras traduções portuguesas usam “tíbio”, a palavra antiga para essa temperatura. As duas descrevem água que não decide: perdeu o calor da origem e ainda não esfriou. Durante séculos, pregadores leram o versículo como escala de devoção: quente seria o fervoroso, frio o descrente, morno o indeciso. A leitura cria um problema. Ela faz Jesus preferir o descrente ao indeciso, como se o “oxalá foras frio” do versículo 15 elogiasse a incredulidade. Em 1958, os ingleses Martin Rudwick e Michael Green publicaram na revista Expository Times o artigo “The Laodicean Lukewarmness” (a mornidão de Laodiceia). Rudwick era geólogo de formação, e os dois foram olhar o vale do Lico com olhos de quem estuda pedra e água. A proposta deles cabe numa frase: quente, frio e morno são as três águas da região. Quente é Hierápolis, cuja fonte termal tratava doentes. Frio é Colossos, cuja água de montanha aliviava a sede. Morno é Laodiceia, cuja água não fazia nenhum dos dois. Lida assim, a frase do versículo 15 muda de sentido. “Oxalá foras frio ou quente” quer dizer: oxalá servisses para alguma utilidade. O frio e o quente são bons. O problema está na obra que não serve a ninguém. O geógrafo grego Estrabão, na “Geografia”, escrita por volta do ano 20, já registrava a água dura do vale. Ele conta que as fontes de Hierápolis endureciam tão depressa que viravam pedra nos canais de irrigação. O calcário que formou os terraços brancos de Pamukkale também estreitava os canos de Laodiceia. Os blocos achados mostram o furo apertado pela crosta. Quantas vezes a cidade limpou ou trocou o encanamento, nenhum registro antigo informa. A carta usa outras imagens da própria cidade. Em 3.17, a igreja diz “Rico sou, e estou enriquecido, e de nada tenho falta”. Em 3.18, Jesus aconselha comprar ouro, vestes brancas e colírio. Banco, lã preta e remédio de olhos eram o orgulho local. O historiador romano Tácito, nos “Anais”, livro 14, conta que Laodiceia caiu num terremoto no ano 60 e se reergueu com recursos próprios, sem ajuda de Roma. A igreja herdou o tom da cidade: autossuficiente, e morna. O versículo não diz quantos cristãos havia em Laodiceia nem quem os liderava. Colossenses 4.16 mostra que Paulo escreveu uma carta a essa igreja, mas o texto dela se perdeu, e nenhuma cópia antiga foi encontrada.
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