|
Fim de tarde em Jerusalém, no ano em que o profeta Ageu falou. Um diarista recebe o pagamento em pedaços de prata pesados na balança. Não há carteira nem bolso. Ele dobra a prata num pano, torce as pontas e amarra o nó no cinto. Esse pano amarrado tem nome no texto de Ageu: ṣərôr (trouxa, bolsinha fechada com nó). A palavra descreve o objeto pelo gesto de amarrar. O verbo da mesma raiz quer dizer apertar, prender, embrulhar. O furo também tem palavra própria. Ageu escreve nāqûb (furado, perfurado), de uma raiz usada para abrir buraco com ponta. Juntas, as duas palavras pintam uma trouxa bem atada em cima e aberta embaixo. A trouxa de prata aparece cedo na Bíblia. Em Gênesis 42.35, os irmãos de José esvaziam os sacos de trigo trazidos do Egito e encontram, dentro deles, as trouxas de dinheiro. O susto deles começa nesse pano amarrado. Provérbios 7.20 usa a mesma palavra para o marido que viajou levando o saco de prata. Em 1 Samuel 25.29, Abigail fala da vida de Davi atada na trouxa dos viventes, guardada por Deus. O objeto servia de imagem para o que não se quer perder. Ageu vira a imagem do avesso. A trouxa continua atada, o dono continua cuidando do nó, e a prata escorre por baixo. O dinheiro não é roubado nem gasto em festa. Ele simplesmente sai pelo caminho. Quem recebe esse salário, no hebraico, é o mistakkēr (o que se aluga por pagamento). É o trabalhador contratado por dia, sem terra própria. Para ele, cada pedaço de prata perdido era comida a menos na mesa da noite. O versículo não fala só de dinheiro. Ele lista cinco perdas: semente sem colheita, comida sem fartura, bebida sem saciedade, roupa sem calor e salário sem destino. A trouxa furada fecha a lista e resume as outras quatro. Ageu dá a causa nos versículos 9 e 10: o templo seguia arruinado enquanto cada morador corria para a própria casa. Por essa razão, diz o profeta, o céu reteve o orvalho e a terra reteve o fruto. As casas citadas em Ageu 1.4 eram sәfunim (forradas de painéis de madeira). Forrar parede era luxo numa cidade pobre, porque madeira boa vinha de longe. O povo tinha recursos para acabamento e escolhia gastá-los dentro de casa. Ageu não acusa o povo de preguiça. Os moradores trabalhavam, plantavam e recebiam. O furo estava na ordem das prioridades: a obra comum esperava, e a obra particular avançava sem pausa. Por essa leitura, o saco furado descreve um hábito diário. A prata cai pelo mesmo buraco todos os dias, e o dono só percebe quando soma o mês inteiro.
|