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A palavra de 2 Timóteo 3:16 é theópneustos. Ela cola theós, Deus, com pnéō, soprar, respirar. O sentido de raiz é direto: soprada por Deus.
A forma do adjetivo importa mais do que parece. Em grego, terminações desse tipo costumam ser passivas, e descrevem o que a coisa recebeu, não o que a coisa produz. Theópneustos diz o que foi soprado, não o que sopra.
O objeto do adjetivo é pâsa graphḗ, toda escritura. Graphḗ é a palavra ordinária para texto escrito, algo que alguém traçou com tinta em rolo. Não é visão, não é voz interior, não é experiência.
O adjetivo, portanto, qualifica um objeto material. O ar de origem está no texto que ficou registrado, e é ali que a carta manda o leitor procurar.
O termo aparece uma única vez em todo o Novo Testamento. Palavras assim, com ocorrência isolada, recebem em grego o nome de hápax legómenon, dito uma vez.
Uma palavra assim perde a rede de comparações internas, e o exame corre pela morfologia e pelo uso fora do texto sagrado.
Fora dele, a família do verbo é banal. Pnéō sopra em Mateus 7:25 quando os ventos batem na casa construída sobre a rocha, e sopra em João 3:8 quando o vento vai onde quer.
Nenhum desses usos tem cor de êxtase. É movimento de ar, força de fora com efeito visível.
A ponte mais forte está no primeiro livro da Bíblia. Em Gênesis 2:7, Deus sopra na narina do homem e o homem se torna alma vivente, e a Septuaginta usa ali o verbo irmão, empneúō.
O paralelo organiza a leitura inteira. Um punhado de barro não vira gente por mérito do barro, e um rolo não carrega peso próprio por mérito da tinta. Nos dois casos, a coisa recebe fôlego de fora.
Vale ver o que a palavra grega não contém. Ela não tem nenhum elemento que signifique entusiasmo, emoção, arrebatamento ou dom literário.
O que aconteceu com o escritor no instante da escrita fica de fora da frase. A carta afirma a origem do produto e se cala sobre a psicologia do processo.
O deslocamento veio depois, pela estrada do latim. A Vulgata traduziu o adjetivo por divinitus inspirata, soprada de dentro por Deus, e a preposição in empurrou o sopro para dentro.
De inspirata saiu inspirada em português, e a palavra portuguesa hoje carrega outra bagagem inteira: a musa, o rompante criativo, o dia em que o artista acorda com a ideia pronta.
O grego dizia o contrário do que a palavra portuguesa sugere ao ouvido moderno. O sopro sai de Deus e chega ao texto. Não sobe do escritor nem depende do humor dele naquela tarde.
O versículo seguinte fecha o raciocínio com a finalidade, e a finalidade é prática. O texto soprado serve para ensinar, repreender, corrigir e instruir em justiça, quatro verbos de uso, não de contemplação.
A origem, na frase, não é um título honorífico pendurado no rolo. É a razão pela qual o rolo pode ser usado como régua sobre a vida de quem o lê.
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