|
θριαμβεύω (thriambeúō) vem de θρίαμβος, thríambos, que no grego antigo nomeava um hino processional cantado a Dioniso. A palavra atravessou para o latim como triumphus, provavelmente por intermédio do etrusco, e voltou ao grego do primeiro século já com o sentido romano colado nela.
No uso helenístico o verbo é transitivo e carrega um significado só: conduzir alguém em cortejo de triunfo. O sujeito é sempre o vencedor. O objeto é sempre quem foi capturado e vai exibido na rua.
A forma em 2 Coríntios 2:14 é θριαμβεύοντι. Particípio presente ativo, dativo masculino singular, e o dativo não está ali por acaso: ele concorda com τῷ θεῷ, a Deus, lá no começo da frase. Quem conduz o cortejo é Deus.
O pronome seguinte fecha a conta. ἡμᾶς, hēmâs, é acusativo, o caso do objeto direto. A ação sai de Deus e recai sobre nós, e a tradução literal sai curta: que sempre nos conduz em triunfo.
Para chegar em nos faz triunfar seria preciso ler o verbo como causativo, fazer com que alguém triunfe. Esse sentido causativo não aparece em nenhum outro texto grego do período, e nasceu para resolver o desconforto da imagem, não para traduzi-la.
O advérbio πάντοτε, pántote, sempre, prende a cena no presente contínuo. Não é um desfile que aconteceu e virou lembrança, é um que não terminou.
A única outra ocorrência do verbo no Novo Testamento resolve qualquer dúvida sobre quem é o objeto. Em Colossenses 2:15 aparece θριαμβεύσας αὐτούς, tendo os conduzido em triunfo, e ali os conduzidos são os principados e as autoridades, desarmados e expostos em público.
Ninguém traduz aquela linha como fez os principados triunfarem. Nas duas vezes em que a palavra aparece, o objeto do verbo é quem foi levado, nunca quem levou.
O segundo particípio da frase vem na mesma construção. φανεροῦντι, manifestando, também no dativo, também concordando com Deus. E o que ele manifesta δι' ἡμῶν, por meio de nós, é τὴν ὀσμὴν τῆς γνώσεως αὐτοῦ, o cheiro do conhecimento dele.
ὀσμή, osmḗ, é cheiro, palavra neutra, que serve para o agradável e para o insuportável. A do versículo seguinte é outra: εὐωδία, euōdía, aroma bom, o termo que a Septuaginta usa para a fumaça do sacrifício em Gênesis 8:21 e em Levítico 1:9.
O verso 16 monta a frase em duas rotas, não em dois cheiros. ὀσμὴ ἐκ θανάτου εἰς θάνατον para uns, ὀσμὴ ἐκ ζωῆς εἰς ζωήν para outros. A preposição ἐκ marca a origem e εἰς marca o destino, então cada cheiro vem de um lugar e leva de volta para ele.
O último detalhe é geográfico. Ἐν παντὶ τόπῳ, em todo lugar. O cortejo romano tinha rota fixa, portão próprio de entrada e um destino só no alto da colina, e a frase de Paulo tira essa rota do mapa.
A gramática entrega a cena inteira. Deus no dativo como quem conduz, nós no acusativo como quem é conduzido, e o cheiro que sobe do trajeto como o único produto que a rua percebe.
|