|
A resposta de ontem Quantos anos Jefté julgou Israel depois do vau? Seis anos. Juízes 12.7 encerra a história dele numa linha só: Jefté julgou Israel seis anos e foi sepultado numa das cidades de Gileade. O texto não diz qual cidade, e nenhum outro livro bíblico completa o dado. Hebreus 11.32 ainda o põe na lista dos heróis da fé, ao lado de Gideão e Sansão. |
Imagine o pátio de uma sinagoga na Galileia do século I. Um homem condenado pelo tribunal local está amarrado a uma coluna baixa, curvado, com a túnica aberta até a cintura. Ao lado, o servidor da sinagoga segura uma correia de couro. A ordem vem de Deuteronômio 25.3. Na Almeida Revista e Corrigida: “Quarenta açoites lhe fará dar, não mais; para que, porventura, se lhe fizer dar mais açoites do que estes, teu irmão não fique envilecido aos teus olhos.” O hebraico usa ʾarbāʿîm (quarenta) e acrescenta lōʾ yōsîf (não acrescentará). A lei fixava o máximo, não a quantidade obrigatória. E o motivo vem escrito no próprio versículo: o condenado continua sendo “teu irmão”. Os rabinos leram o teto como risco. Quem conta golpes no calor da sentença pode errar a soma. Um açoite a mais transformava o castigo legítimo em crime do próprio juiz. A Mishná, coletânea da lei oral judaica fechada por volta do ano 200 pelo rabino Judá, o Príncipe, registra a solução no tratado Makkot 3.10: “Quantos golpes se dão? Quarenta menos um.” O tratado ainda justifica a cifra pela leitura do versículo. O texto hebraico fala em “número, quarenta”, e os sábios entenderam um número que chega perto de quarenta, sem tocá-lo. Na prática, o golpe trinta e nove era o último da sessão. Ninguém chegava ao quadragésimo, nem por engano, porque a regra tirava esse número da mesa antes do primeiro golpe. A divisão também pesava. Makkot 3.11 manda repartir os golpes em três partes: uma no peito, duas nas costas. Trinta e nove se divide por três sem sobra, com treze golpes no peito e vinte e seis nas costas. Antes da sentença, avaliava-se o condenado. Se ele não aguentasse trinta e nove, o tribunal reduzia para um múltiplo de três que o corpo suportasse. A cerca protegia o limite e também a pessoa. O servidor também respondia pelo próprio braço. A regra queria um castigo aplicado com medida, por alguém que contava em voz baixa e sabia que cada golpe a mais cairia sobre a própria consciência. Flávio Josefo, historiador judeu, confirma o costume nas “Antiguidades Judaicas”, livro 4, escritas por volta do ano 93: o castigo era de quarenta golpes menos um. Paulo e Josefo, sem combinar, chegam à mesma cifra. Na carta, Paulo escreve em grego tesserakonta para mian (quarenta menos uma). A expressão traduz a conta rabínica ao pé da letra. Ele não arredondou para impressionar os coríntios. Resta o motivo de aceitar a pena cinco vezes. A sinagoga só punia quem se reconhecia membro dela. Paulo podia sair e evitar a correia; escolheu ficar e continuar pregando nas sinagogas. Sobre as acusações de cada condenação, o texto se cala. Paulo não diz em quais cidades apanhou nem quais crimes ouviu na sentença, e nenhuma fonte antiga preenche a lista.
|