|
Nas paredes do palácio de Senaqueribe, em Nínive, os escultores assírios gravaram o cerco de Laquis, cidade de Judá tomada em 701 a.C. Os painéis estão hoje no Museu Britânico, em Londres. Numa das cenas, uma fileira de soldados gira a funda acima da cabeça. Os fundeiros ficam atrás dos arqueiros, em formação. A imagem mostra o lugar da funda no exército: arma de linha, usada por homens treinados, junto com os arcos. O arqueólogo israelense Yigael Yadin reuniu essas cenas no livro “The Art of Warfare in Biblical Lands” (A arte da guerra nas terras bíblicas), de 1963. Ele trata a funda como arma de alcance dos exércitos do antigo Oriente, irmã do arco. A Bíblia confirma o quadro. Juízes 19 e 20 narram a guerra das outras tribos contra Benjamim, depois que homens de Gibeá abusaram da concubina de um levita até ela não resistir. Benjamim reuniu vinte e seis mil homens de espada e, separados deles, setecentos escolhidos. Na Almeida Revista e Corrigida: “Entre todo este povo havia setecentos homens escolhidos, canhotos, os quais todos atiravam com a funda uma pedra num cabelo e não erravam.” Assim registra Juízes 20.16. O hebraico diz que eram ʾiṭṭēr yad-yĕmînô (impedidos da mão direita). A expressão pode descrever quem nasceu canhoto ou quem foi treinado desde cedo para usar a esquerda. O texto não esclarece qual das duas, e os comentaristas seguem divididos. A ironia está no nome da tribo. Binyāmîn quer dizer “filho da mão direita”. Da tribo da mão direita saíam os melhores atiradores da mão esquerda. Eúde, o juiz que matou o rei Eglom de Moabe em Juízes 3.15 a 3.21, também era benjamita e canhoto. A explicação mais repetida pelos comentaristas para a vantagem do canhoto é a defesa do inimigo. O escudo era erguido pensando em golpes de destros. A pedra que vinha do lado oposto encontrava a proteção fora do lugar. Agora o verbo. “Não erravam” traduz lōʾ yaḥṭiʾ, do verbo ḥāṭāʾ (errar o alvo). É o mesmo verbo que o Antigo Testamento usa para pecar, como no Salmo 51.4: “Contra ti, contra ti somente pequei”. Para o leitor hebreu, pecar e errar a pedra cabiam na mesma palavra. O fundeiro que falhava o alvo fazia, na língua, o mesmo gesto do homem que se desviava da lei. A precisão vinha de treino. Primeira Crônicas 12.2 descreve os guerreiros de Benjamim que se juntaram a Davi em Ziclague: usavam a mão direita e a esquerda para atirar pedras com a funda e flechas com o arco. Davi, da tribo de Judá, aprendeu a arma em outro campo. Em 1 Samuel 17.34 e 17.35, ele conta a Saul que, quando o leão ou o urso levava uma ovelha, ia atrás do animal e tirava a ovelha da boca dele. As cinco pedras de 17.40 vêm descritas como ḥallūqê ʾăbānîm (pedras lisas). A pedra de ribeiro, gasta pela água, voa mais reta. O atirador escolhe a munição pelo formato, como o arqueiro escolhe a flecha. Por que cinco? O texto não diz. Uma leitura antiga liga o número aos quatro parentes gigantes de Golias, citados em 2 Samuel 21.22, mas o capítulo 17 não faz essa ligação. O dado certo é outro: bastou uma.
|