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1 Coríntios 13:7
O amor tudo sofre
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Telhado de barro batido e o rolo de pedra
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"Quem teme sofrer já sofre o que teme." Montaigne escreveu a frase nos Ensaios, publicados em 1580, e ela ajuda a explicar por que tanta gente aceita calada uma situação ruim em nome do amor. A antecipação da dor vira o argumento que mantém a pessoa parada no lugar onde ela está. O telhado de uma casa comum da Palestina do primeiro século não tinha telha. Vigas de sicômoro sustentavam um trançado de galhos, e sobre o trançado vinha uma camada de barro batido. Depois de cada chuva forte, alguém subia com um rolo de pedra e passava o rolo sobre a superfície, comprimindo o barro de novo para fechar as fissuras que a água tinha aberto. Casa sem manutenção pingava dentro do quarto na chuva seguinte. A palavra grega para essa cobertura é stégē, e ela aparece no Novo Testamento quando os amigos do paralítico abrem o teto para descer o doente na frente de Jesus. Do mesmo substantivo nasce um verbo, stégō, que significa cobrir no sentido mais físico possível: reter a água, impedir a entrada, guardar o que está dentro. Esse verbo é a primeira palavra da lista de quatro que 1 Coríntios 13:7 apresenta. A tradução mais repetida em português entrega "tudo sofre", e o leitor brasileiro ouve resignação, boca fechada, aceitação de qualquer peso sem reclamar. O grego diz outra coisa. Diz telhado. A diferença fica mais clara porque o próprio verso guarda os dois sentidos em pontas opostas. A primeira ação é cobrir. A quarta, no fim da frase, usa um verbo diferente, que trata de permanecer debaixo de um peso. Paulo tinha as duas ideias à mão, escolheu as duas, e as colocou em lugares separados. Quem funde tudo em sofrer perde exatamente a distinção que ele fez questão de manter. O verbo, a família de palavras que o cerca, o uso militar e naval que ele tinha no grego comum, e o contraste com o último verbo da lista vêm agora. Continue lendo ↓
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I A Palavra
Panta stégei, o verbo que vem de telhado
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O verso corre assim no original: panta stégei, panta pisteúei, panta elpízei, panta hypoménei. Quatro verbos no presente do indicativo ativo, cada um precedido do mesmo panta, acusativo neutro plural que funciona aqui como advérbio. A tradução mais próxima do sentido fica em "em todas as coisas cobre, em todas crê, em todas espera, em todas permanece". O presente do indicativo, em grego, descreve ação contínua, hábito, estado em curso. Nenhum dos quatro verbos está no aoristo, tempo do fato pontual. A frase não fala de um gesto heroico ocasional, fala de uma prática que se repete enquanto a relação existe. Stégō carrega o sentido concreto antes de qualquer sentido moral. Tucídides, na História da Guerra do Peloponeso, escrita no século V antes da era comum, usa o adjetivo aparentado para descrever o navio que não faz água, o casco que segura o mar do lado de fora. Um barco que stégei é um barco em que a tripulação chega viva ao porto. O sentido militar vem da mesma imagem. A cobertura de escudos formava um teto sobre a tropa, e o verbo descrevia essa proteção erguida por cima de quem estava embaixo. A ação sempre aponta para fora, contra o que ameaça, e nunca para dentro, contra quem é protegido. Do sentido de reter nasce um terceiro uso, o de guardar segredo. Quem cobre também não deixa vazar o que está debaixo do teto. O grego usava o verbo para quem não espalha a falha alheia, e a mesma ideia aparece na carta de Pedro com outro verbo, kalýptō, na frase sobre o amor que cobre multidão de pecados. Paulo emprega stégō em outros dois lugares das cartas, e os dois ajudam a fixar o sentido. Em 1 Coríntios 9:12 ele escreve panta stégomen para explicar por que abriu mão de um direito próprio a fim de não atrapalhar o anúncio do evangelho. Cobrir ali significa absorver um custo pessoal para que o outro receba algo intacto. Em 1 Tessalonicenses 3:1 e 3:5, a construção é negativa: mēkéti stégontes, não cobrindo mais, não segurando mais. Paulo descreve o momento em que a preocupação com a comunidade transbordou e ele precisou agir, mandando Timóteo. O verbo tem um limite embutido: o telhado segura até certo ponto, e quando não segura mais, alguém se move. O último verbo do verso trabalha em outra direção. Hypoménō junta hypó, sob, e ménō, permanecer. Descreve quem fica debaixo da carga sem sair do lugar, e a literatura grega usa o termo para o soldado que não recua da posição. A resignação silenciosa que a tradução tradicional sugere mora aqui, no fim da lista, e não na abertura. Entre as duas pontas ficam os verbos de confiança e de expectativa, pisteúei e elpízei. A sequência tem uma arquitetura: cobre, confia, espera, permanece. O telhado vem primeiro porque sem ele os outros três se molham. ---
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II Aplicação Prática
Separe cobertura de goteira em quinze minutos
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O verso trata de uma prática, e prática se testa no papel. O exercício abaixo separa o que você cobre do que você apenas engole, leva quinze minutos somados e cabe numa folha dobrada ao meio. Primeiro passo, cinco minutos. Na coluna da esquerda, escreva de três a cinco cargas que você carrega hoje por causa de alguém: um defeito que você não comenta, uma tarefa que você assume em silêncio, um dinheiro que você cobre todo mês, uma informação que você guarda. Frases curtas, uma linha cada, sem justificativa. Segundo passo, cinco minutos. Ao lado de cada linha, escreva cobertura ou goteira, uma palavra só. Cobertura é a carga que protege a outra pessoa e que você assumiria de novo se ninguém ficasse sabendo. Goteira é a carga que você carrega e depois deixa vazar em indireta, em tom seco, em silêncio pesado na cozinha. O teste é simples: se a carga aparece na sua irritação de terça-feira, ela vaza. Terceiro passo, cinco minutos. Escolha uma linha marcada como goteira, a de menor tamanho, e escreva embaixo a frase exata que você vai dizer à pessoa envolvida nas próximas vinte e quatro horas. A frase precisa de duas partes: o que você tem carregado e o que você pede daqui em diante. Sem histórico, sem contabilidade de quantas vezes, sem a palavra sempre. O erro mais comum aparece no segundo passo, e ele tem forma reconhecível. A pessoa marca tudo como cobertura, porque marcar goteira parece admitir falta de amor. A correção é olhar para a semana passada e procurar o momento em que o assunto saiu de lado, num comentário torto. Carga que sai torta estava na coluna errada. Vale registrar uma quarta linha no rodapé da folha. Anote há quanto tempo a maior carga da lista está com você, em meses. O número escrito à mão costuma surpreender quem escreve, porque a estimativa vaga sempre encolhe o tempo real, e o tempo real é a informação que decide se a conversa do terceiro passo pode esperar mais. Guarde a folha por sete dias e releia na manhã do sétimo. Carga que continua na coluna de cobertura depois de uma semana provavelmente é cobertura de verdade. Carga que mudou de coluna na releitura estava pesando mais do que você admitia no dia em que escreveu. ---
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